Pensando ao Contrário: Trabalho e a Tecnologia em Tempos de IA

        Nos tempos em que vivemos, tornou-se uma espécie de lugar comum discutir os impactos da tecnologia no mundo do trabalho. De fato, com as mudanças que observamos atualmente e com a aplicação inédita das tecnologias informacionais em múltiplas áreas da existência humana, a avaliação dos impactos da técnica e de suas ferramentas na reorganização dos ambientes de trabalho se posicionou como uma das mais férteis áreas de estudo para cientistas preocupados com os dilemas sociais do século XXI. Seja com a reflexão sobre as novas mediações algorítmicas que estruturam a economia das plataformas digitais ou com a avaliação dos impactos sociais que os poderosos modelos de aprendizado de máquina encerram para o mercado de trabalho, o entendimento de que o labor é estruturalmente transformado – quando não, determinado – pela evolução tecnológica se tornou uma espécie de senso comum nas humanidades.

        E isto não é nenhum problema. Na verdade, as discussões sobre o referido tema trouxeram avanços importantes, vitais com toda a certeza, para qualquer compreensão adequada dos conflitos laborais que se apresentam em nosso século: o vetor que aponta da tecnologia digital para o moderno e atualizado ambiente de trabalho parece estar em boas mãos e certamente ainda veremos muitos bons estudos saindo desta intersecção. Neste contexto, porém, algumas perguntas interessantes poderiam ser colocadas: E se pensássemos ao contrário? Existiria alguma reflexão a ser feita sobre o papel que o trabalho possui na constituição das tecnologias? Nesse caso, a resposta simples (mas não banal) seria afirmar que todas as tecnologias são construídas pelo trabalho de cientistas, técnicos informacionais, programadores e desenvolvedores espalhados pelos quatro cantos do mundo. E a resposta complexa? Não sobre a execução de patentes prontas e sim quanto ao papel do trabalho na concepção das tecnologias? Para responder a esta questão, podemos contar com dois autores separados no tempo, mas convergentes em suas análises.

        O primeiro deles é Harry Braverman, pesquisador que estabelece os fundamentos da discussão que pretendemos fazer nesta nota crítica. A grande reflexão presente na obra deste autor é a identificação da construção social das máquinas com os crescentemente complexos esquemas de divisão do trabalho encontrados no capitalismo monopolista do pós-guerra. Em seu único livro, de 1974, o autor estadunidense sugere que as dinâmicas de organização do processo de trabalho, em especial no que se refere a emergência da gerência científica e a divisão entre execução e concepção/organização de tarefas industriais, assentam as bases para a elaboração das máquinas que passam a coexistir com os operários dentro das linhas de produção operantes naquele contexto histórico (Braverman, 1981).

        A origem do argumento vem de uma formulação de Adam Smith, posteriormente aprimorada por Charles Babbage – inventor de um computador mecânico decimal, precursor dos atuais eletrônicos binários – em dois princípios que guiam a automação do trabalho: (i) uma máquina surge para imitar e substituir um trabalho já “mecanizado” na organização de suas tarefas/etapas, de modo que a máquina substituiu divisões do trabalho testadas e aprovadas por sua eficiência; (ii) a divisão do trabalho permite uma melhor mensuração e contabilização do processo de trabalho que fragmenta, assim, melhorando a alocação da força de trabalho e recursos, pois se um mesmo trabalhador executa todo o processo de trabalho sua capacidade produtiva (habilidade, força e instrumentos) deve corresponder ao requerido pela tarefa mais exigente e se manter parcialmente ociosa nas tarefas mais fáceis – o que dificulta uma contabilização mais precisa dos custos de produção.

        Pasquinelli, segundo autor que abordaremos nesta nota crítica, lembra que foi Braverman quem resgatou a influência de Babbage sobre a obra de Karl Marx e demarcou a relevância de tais princípios da eficiência produtiva e contábil da divisão do trabalho. Quanto a isso, ademais, vale lembrar que a divisão do trabalho é um princípio de ordenamento social (e não somente um design técnico) que perpassa toda a história do capitalismo. Em outras palavras, longe de ser uma racionalização da técnica neutra, a divisão social do trabalho é uma relação histórica, cuja constituição tem um sentido político inerente e contestável. É este caráter sociológico da divisão do trabalho, ou seja, seu papel na constituição da solidariedade e da ordem no processo de trabalho, que Braverman lançará mão para estudar as grandes fábricas mecanizadas do século XX.

        Quais então são as contribuições do autor para compreendermos melhor a constituição das máquinas pelo trabalho humano? A primeira chave de leitura deve ser buscada na interessante tendência, organizada pela disciplina do gerenciamento científico hegemônica na época, de identificar o trabalhador com a máquina. Começando com Frederick Taylor, foram desenvolvidos princípios gerenciais (assentados na divisão do trabalho) capazes de transformar os movimentos humanos em entidades técnicamente computáveis, fragmentando assim o corpo em mecanismos independentes de dispêndio de esforço. Uma vez em posse deste arcabouço de posições e gestos, a gerência especializada que organizava burocraticamente as fábricas utilizava este “mapa de movimentos” para (re)construir o processo de trabalho e distribuir os trabalhadores em suas novas funções.

        O grande dilema é que o refinado conhecimento acumulado sobre os movimentos humanos despendidos durante a realização de um trabalho encontra seu ponto culminante na produção de máquinas capazes de automatizar estes mesmos movimentos. O saber obtido pela gerência é aplicado em máquinas capazes de dirigir o processo de trabalho e realizar as tarefas que só um mecânico especializado, por exemplo, conseguia anteriormente realizar. Pensando sobre este fato, podemos notar que a tecnologia presente nas fábricas do pós-guerra trazia refletida em seus mecanismos, primeiramente, a acentuada divisão fordista entre execução e gerenciamento/organização do trabalho – que radicalizava o que a manufatura fizera antes com as oficinas de artesãos – e, segundamente, a lógica dos movimentos humanos detalhados, movimentos estes que, codificados e matematizados, se transformam em engrenagens capazes de realizar o que antes só corpos biológicos podiam.

        Para Braverman (1981), a culminação lógica deste processo foi representada pela máquina controlada por fichas numéricas ou cartões perfurados, ou seja, um mecanismo capaz de orientar seus movimentos a partir de um input de informação lógica – estruturada de modo operacional – e temporalmente separado de seus operadores imediatos. A invenção deste mecanismo, que revoluciona o processo de trabalho conhecido até então, não pode ser entendida sem que se entenda o moderno esquema de divisão do trabalho industrial, principalmente em seu aspecto de separação entre trabalho manual e intelectual, divisão essa que se reflete em uma máquina capaz de realizar operações físicas a partir de um controle informacional codificado “intelectualmente”. Usando uma metáfora bíblica, é como se um determinado regime de trabalho construísse máquinas a sua imagem e semelhança.

        Mas como estes princípios desenhados por Harry Braverman chegam nos tempos da Inteligência Artificial? Para entender isso, vamos recorrer a um autor que escreve nos dias de hoje: o italiano Matteo Pasquinelli. Este escritor retoma a discussão sobre IA iniciada em meados do século passado e a posiciona no contexto das tecnologias digitais “inteligentes” – pós AlexNet e seu reconhecimento de imagens de 2012 – e dos mais longevos procedimentos científicos e tecnológicos historicamente responsáveis por sua construção. Nesta nota crítica, fazemos referência principalmente a seu livro “The Eye of the Master” publicado em 2023, livro no qual o autor faz referência explícita ao tema deste texto, colocando a coisa nos termos de uma teoria laboral da máquina (labour theory of the machine) – para uma resenha completa do livro ver Gonçalves e Ferreira Neto (2025).

        Seguindo a intuição de Braverman, o autor busca neste livro contar a história social da IA como instrumento de captura da inteligência, quer tácita ou explícita, do trabalho humano. Dessa maneira, ao tomar a eficiência da divisão do trabalho no capitalismo como ingrediente essencial no desenvolvimento dos modelos de Inteligência Artificial, Pasquinelli (2023) complementa e renova o estudo da relação entre trabalho social e tecnologia. Sua obra marca a passagem de um capitalismo monopolista de corporações baseado na produção massiva de mercadorias tangíveis, tematizado por Braverman, para as novas fronteiras imateriais de acumulação e monopólios de dados. Para tanto, o primeiro passo percorrido pelo autor em seu trabalho é reconhecer e articular a relação que existe entre algoritmos (máquinas abstratas) e trabalho mental, ou seja, ele caminha em direção ao entendimento de que as ferramentas mais elementares da vida digital que conhecemos hoje em dia estão assentadas sob a automatização de um aspecto específico da atividade humana.

        As grandes posições tomadas por Pasquinelli (2023), mas que também foram parcialmente abordadas por Braverman (1981), são o fato de que todo trabalho humano transmite informação ao processo produtivo no qual ele se desenrola, e também a noção de que as tarefas carregam uma dimensão cognitiva central (embora na maior parte das vezes não explicitada): temos então uma teoria do trabalho baseado em conhecimento (knowledge theory of labour). De forma semelhante a que o autor norte-americano concebe a automatização das funções motoras em máquinas, Pasquinelli (2023) concebe a automatização das funções cognitivas em instrumentos de Inteligência Artificial: a começar pelo trabalho mental de percepção de formas visuais ou reconhecimento de imagens. Esses instrumentos procuram transformar a inteligência social tácita ou explícita presente no trabalho cotidiano em um “cérebro autônomo”, capaz de realizar sozinho as tarefas antes postas sob o signo da exclusividade humana (inclusive aquelas tarefas cognitivas antes características da gerência taylorista).

        Uma vez apreciada a tentativa de cristalizar a cognição laboral humana em ferramentas computacionais automatizadas, cabe entender o possível papel de tais procedimentos automatizados – realização de computações, organização de informações e descoberta de padrões – na substituição de tarefas laborais consolidadas e de seus respectivos postos de trabalho. Visto que se pretende como uma mente autônoma, a Inteligência Artificial – especialmente os modelos de aprendizagem de máquina – ao promover uma rodada de substituição da força de trabalho, precisa simultaneamente controlar e redistribuir o trabalho humano que continua a existir em seu entorno. A criação de uma mente artificial funcional, requer a captura tanto da inteligência antes presente organicamente em cada humano realizador de tarefas quanto da inteligência objetivada, agregada e recomposta em artefatos que escapam ao controle deste realizador individual. Voltamos então ao pressuposto básico do livro de Braverman, o qual sugere que a aplicação capitalista de tecnologia decompõe o trabalho ao nível da experiência concreta do trabalhador e o recompõe em um processo abstrato – que ultrapassa e submete seus operadores.

        A intersecção entre nossos dois autores vai também nos levar à conclusão desta nota crítica. Respondendo a pergunta inicial, podemos dizer que o trabalho está presente na constituição da tecnologia na medida em que certas máquinas, digitais ou não, são criadas para espelhar a lógica da realização humana de tarefas (socialmente inserida e organizada). Dizer isto é dizer que a maquinaria utilizada no ambiente de trabalho traz inscrita em seu funcionamento tanto as assimetrias de poder constitutivas da divisão capitalista de trabalho quanto a inteligência social, sobretudo tácita, que está por trás dos movimentos e pensamentos dos trabalhadores. No entanto, outro ponto importante de ser sublinhado é que antes das máquinas automatizarem o trabalho – e isso vale tanto para os tempos de Braverman quanto para os de Pasquinelli (nossos próprios neste caso) –, o próprio labor tem que ser codificado, fragmentado e construído como unidade simples de movimento e/ou informação. Esta objetificação do trabalho significa em termos conceituais sua metamorfose em força produtiva: a contraparte da máquina que desempenha o trabalho humano é o humano tratado como máquina. Isto significa um processo de fragmentação no concreto e recomposição no abstrato que tem o potencial não só de esvaziar o sentido/valor subjetivo da jornada de trabalho, como também de promover tarefas mais degradadas, em condições mais instáveis, indefinidas, insalubres e socialmente negligenciáveis.

        E este fato possui mais uma implicação importante para nosso assunto nesta nota crítica. Fazemos referência ao interessante costume moderno de projetar certos aspectos constitutivos das máquinas ao estudo dos seres humanos; dessa forma o corpo humano foi descrito como uma máquina de movimentos algumas décadas atrás – sobre o corpo visto como máquina, ver O Grande Calibã: A Luta Contra o Corpo Rebelde, capítulo 3 de Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici (2017) – e hoje a Inteligência Artificial é apresentada como um espelhamento do cérebro humano. O interessante de notar, como sugere Pasquinelli (2023), é que este tipo de operação é quase sempre feito a posteriori, ou seja, da mesma forma em que o corpo humano só pode ser descrito em unidades de força depois que James Watt criou sua máquina a vapor, a inteligência humana apenas será uma rede articulada de conexões entre neurônios/nós computacionais depois de conhecermos o deep learning.

Referências:

Braverman, Harry (1981) [1974]. Trabalho E Capital Monopolista: A Desagregação Do Trabalho No Século XX. Tradução De Nathanael Caixeiro. Zahar Editores, Rio De Janeiro.

Federici, Silvia (2017) [2004]. Calibã E A Bruxa: Mulheres, Corpo E Acumulação Primitiva. Tradução: Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante.

Gonçalves, Diego & Ferreira Neto, Antônio (2025). Matteo Pasquinelli. The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence. Tempo Social, 37(2), 1-9. https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2025.237138

PASQUINELLI, Matteo (2023). The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence. London; New York: Verso.